Escritores brasileiros – Luis Fernando Veríssimo

by cursovilabrasil on 01/09/2013 No comments

luis-fernando-verissimo-escritor-20101105-size-598Luis Fernando Veríssimo é um dos mais populares e consagrados escritores brasileiros contemporâneos. Nascido em Porto Alegre em 1936, ficou conhecido por suas crônicas publicadas em vários jornais brasileiros. É filho do também escritor brasileiro Érico Veríssimo.

Abaixo, uma crônica do Veríssimo que reproduz possíveis dificuldades de estrangeiros com expressões do português do Brasil:

 

PÁ, PÁ, PÁ

 A americana estava há pouco tempo no Brasil. Queria aprender o português depressa, por isso prestava muita atenção em tudo que os outros diziam. Era daquelas americanas que prestam muita atenção.

Achava curioso, por exemplo, o “pois é”. Volta e meia, quando falava com brasileiros, ouvia o “pois é”. Era uma maneira tipicamente brasileira de não ficar quieto e ao mesmo tempo não dizer nada. Quando não sabia o que dizer, ou sabia mas tinha preguiça, o brasileiro dizia “pois é”. Ela não aguentava mais o “pois é”.

Também tinha dificuldade com o “pois sim“ e o “pois não”. Uma vez quis saber se podia me perguntar uma coisa.

– Pois não – disse eu, polidamente.

– É exatamente isso! O que quer dizer “pois não”?

– Bom. Você me perguntou se podia fazer uma pergunta. Eu disse “pois não”. Quer dizer “pode, esteja à vontade, estou ouvindo, estou às suas ordens…”

– Em outras palavras, quer dizer “sim”.

– É.

– Então por que não se diz “pois sim”?

– Porque “pois sim” quer dizer “não”.

– O que?!

– Se você disser alguma coisa que não é verdade, com a qual eu não concordo, ou acho difícil de acreditar, eu digo “pois sim”.

– Que significa “pois não”?

– Sim. Isto é, não. Porque “pois não” significa “sim”.

– Por quê?

– Porque o “pois”, no caso, dá o sentido contrário, entende? Quando se diz “pois não”, está–se dizendo que seria impossível, no caso, dizer “não”. Seria inconcebível dizer “não”. Eu dizer não? Aqui, ó.

– Onde?

–Nada. Esquece. Já “pois sim” quer dizer “ora, sim!” “Ora se eu vou aceitar isso.” “Ora, não me faça rir. Rá, rá, rá.

– “Pois” quer dizer “ora”?

– Ahn… Mais ou menos.

– Que língua!

Eu quase disse: “E vocês, que escrevem ‘tough’ e dizem ‘tâf ’”? Mas me contive. Afinal, as intenções dela eram boas. Queria aprender. Ela insistiu:

– Seria mais fácil não dizer o “pois”.

Eu já estava com preguiça.

– Pois é.

– Não me diz “pois é”!

Mas o que ela não entendia mesmo era o “pá, pá, pá”.

– Qual o significado exato de “pá, pá, pá”?

– Como é?

– “Pá, pá, pá”.

– “Pá” é pá. “Shovel”. Aquele negócio que a gente pega assim e…

– “Pá” eu sei o que é. Mas e “pá” três vezes?

– Onde foi que você ouviu isso?

– É a coisa que eu mais ouço. Quando brasileiro começa a contar história, sempre entra o “pá, pá, pá”.

Como que para ilustrar nossa conversa, chegou–se a nós, providencialmente, outro brasileiro. E um brasileiro com história:

– Eu estava ali agora mesmo, tomando um cafezinho, quando chega o Túlio. Conversa vai, conversa vem e coisa e tal e pá, pá, pá…

Eu e a americana nos entreolhamos.

– Funciona como reticências – sugeri eu. – Significa, na verdade, três pontinhos. “Ponto, ponto, ponto.”

– Mas por que “pá” e não “pó”? Ou “pi” ou “pu”? Ou “etcetera”?

Me controlei para não dizer – “E o problema dos negros nos Estados Unidos”?

Ela continuou:

– E por que tem que ser três vezes?

– Por causa do ritmo. “Pá, pá, pá”. Só “pá, pá” não dá.

– E por que “pá”?

– Porque sei lá – disse eu, didaticamente.

O outro continuava sua história. História de brasileiro não se interrompe facilmente.

– E aí o Túlio veio com uma lengalenga que vou te contar. Porque pá, pá, pá…

– É uma expressão utilitária – intervi. – Substitui várias palavras (no caso toda a estranha história do Túlio, que levaria muito tempo para contar) por apenas três. É um símbolo de garrulice vazia, que não merece ser reproduzida. São palavras que…

– Mas não são palavras. São só barulhos. “Pá, pá, pá”.

– Pois é – disse eu.

Ela foi embora, com a cabeça alta. Obviamente desistira dos brasileiros. Eu fui para o outro lado. Deixamos o amigo do Túlio papapeando sozinho.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias da vida privada: 101 crônicas escolhidas. 10° ed. Porto Alegre: L&PM, 1995.

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